O encontro de dois gênios: Ney Matogrosso sob as lentes de David LaChapelle

Se existe um artista cuja trajetória se confunde com a própria história da transgressão estética no Brasil, esse artista é Ney Matogrosso. Aos 85 anos, quando a indústria da música costuma empurrar lendas para turnês de despedida melancólicas, Ney faz exatamente o oposto: anuncia a mega turnê “85 Anos de Ousadia” e crava mais um marco histórico na cultura visual contemporânea.

E para celebrar essa fase, o cantor convocou o lendário fotógrafo David LaChapelle para fazer as fotos da turnê, tornando-se assim o primeiro brasileiro a ser fotografado por essa lenda moda.

Ney Matogrosso por David LaChapelle | Reprodução

O encontro entre essas duas forças criativas nasceu do fascínio genuíno. David LaChapelle conheceu o talento de Ney ao assistir à cinebiografia do artista brasileiro (confira o trailler abaixo). O fotógrafo — célebre por retratar ícones globais como Michael Jackson, Madonna, David Bowie e Elton John com um olhar hiperbólico e quase kitsch-sacro — ficou imediatamente fascinado pela intensidade, teatralidade e singularidade do universo de Ney.


A partir desse encantamento e do convite da produtora 30e para a nova tour, LaChapelle viajou pessoalmente a São Paulo com o objetivo de traduzir em imagens a alma vibrante e provocadora de uma figura que nunca pediu licença para existir fora das normas. E qual foi o local escolhido para tornar esse mundo possível? O encantador e exuberante cenário do Jardim Botânico de São Paulo.

A estética tropical desta selva, que fica dentro da metrópole de São Paulo, foi o local perfeito para fundir a linguagem hiper-saturada e cinematográfica de LaChapelle com o universo mágico e surrealista de Ney. Entre luzes místicas, folhagens e sombras poéticas, Ney emerge não como uma figura do passado, mas como uma divindade viva e atemporal da natureza e da arte performática.

A identidade visual da campanha resgata referências cruciais da bagagem de Ney, combinadas com o que há de mais instigante na moda contemporânea. O projeto fez releituras icônicas, ao resgatar e atualizar peças emblemáticas que marcaram a carreira do artista, dialogando com figurinos metálicos, transparências e peles à mostra que redefiniram o dress code dos palcos brasileiros. Além de fazer uma colaboração com o artista visual e stylist paraense Labô Young (conhecido por suas criações orgânicas e botânicas), que criou uma peça conceitual para compor o cenário, conectando a brasilidade ancestral à alta fantasia pop.

Ney Matogrosso por David LaChapelle | Reprodução

O ensaio pelas lentes de David LaChapelle sela uma verdade indiscutível: a ousadia de Ney Matogrosso nunca foi passageira; é monumento, vanguarda e eterno objeto de desejo na história da moda e da arte.

Ney Matogrosso: Pioneiro da subversão estética e da moda sem gênero

Falar de Ney Matogrosso é falar da emancipação do corpo masculino na moda latino-americana. Desde os tempos de Secos & Molhados nos anos 1970 — em plena ditadura militar —, Ney transformou plumas, maquiagens teatrais, ossos, miçangas e a quase nudez em manifesto político de resistência e poesia.

Muito antes de termos conceituais como genderless, fluid fashion ou queer aesthetics estarem no vocabulário das passarelas internacionais de Paris e Milão, Ney já desafiava a virilidade tóxica ao rebolar de tanga, misturar o sagrado com o profano e provar que o vestir masculino é um campo infinito de autoexpressão, sensualidade e coragem.

Ney Matogrosso por David LaChapelle | Reprodução

Essa ousadia visual só alcança tanta potência porque anda de mãos dadas com um talento artístico irretocável. Ney nunca usou o figurino como muleta para mascarar limitações técnicas; pelo contrário, suas roupas sempre foram a extensão física de uma das vozes mais singulares e precisas da música brasileira. Dono de um timbre de contratenor raro, afinação cirúrgica e uma interpretação visceral que vai da sutileza dramática ao grito libertário, ele domina o palco com a imponência de um ator trágico e a malícia de um bailarino popular.

No palco, canto, dramaturgia e corpo não competem: fundem-se em um espetáculo total, onde cada nota aguda parece ditar o movimento milimétrico de um tecido ou de um adereço reluzente. É exatamente por isso que a sua arte transcende o tempo e as tendências passageiras do mercado de moda e entretenimento.

Enquanto a indústria tenta enquadrar homens em padrões rígidos de comportamento e estética, Ney transformou sua própria existência em um manifesto vivo de autenticidade. Seja cantando Cartola com a elegância contida de um clássico ou rasgando canções de rock com o peito desnudo e suado, ele estabeleceu um padrão de excelência cênica praticamente inalcançável. Olhar para Ney Matogrosso hoje é entender que estilo não é sobre seguir regras prontas, mas sobre ter a coragem e a maestria técnica de usar o próprio corpo e a própria voz como matéria-prima da mais pura arte.

Com estreia programada para janeiro de 2027 em São Paulo e passagem garantida pelas principais capitais do país, a turnê não chega com tom nostálgico, mas com o pulsar de um artista em pleno movimento. A venda dos ingressos começam hoje (31 de agosto) pelo site do Eventim.

Thiago Assunção

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