O arquiteto do espetáculo: morre Bob Mackie, o estilista que desafiou a rigidez do vestir masculino e vestiu as maiores lendas da música

Entre os figurinos mais arrebatadores da história da música e a quebra da monotonia no guarda-roupa dos homens, nos despedimos do gênio que fez do excesso a mais refinada forma de arte

Hoje o dia amanheceu indiscutivelmente mais opaco. Receber a notícia da partida de Bob Mackie deixa um nó na garganta de qualquer pessoa que ame a moda pelo que ela tem de mais nobre: a capacidade de nos transportar para fora da realidade comum. Mackie nos deixou aos 87 anos, mas a sensação é de que ele sempre pertenceu a uma dimensão própria — um lugar onde o medo do ridículo nunca existiu e onde a beleza sempre foi sinônimo de coragem.

Numa época em que a indústria tantas vezes se rende a fórmulas mornas e a um minimalismo corporativo sem vida, falar de Bob Mackie é lembrar por que nos apaixonamos por esse universo em primeiro lugar. Ele nunca foi estilista de meias palavras ou de panos discretos. Ficou conhecido como o “sultão dos paetês”, mas rotulá-lo apenas pelo brilho seria injusto com o tamanho da sua técnica. Mackie desenhava acontecimentos visuais, fantasias vivas e momentos que moldaram para sempre a nossa memória cultural.

O início nos estúdios e o traço que mudou a história

A história de Robert Gordon Mackie é daquelas construídas na base do trabalho artesanal e do olhar cirúrgico de bastidor. Ele aprendeu os segredos da modelagem com mestres da era de ouro de Hollywood, trabalhando lado a lado com nomes sagrados como Edith Head e Jean Louis. E foi ainda jovem, como um talentoso desenhista de estúdio em 1962, que suas mãos colocaram no papel o croqui daquele que se tornaria o vestido mais lendário do século XX: a peça transparente bordada à mão que Marilyn Monroe usou para cantar parabéns ao presidente Kennedy.

Marilyn Monroe e o presidente Kennedy (à esquerda), durante celebração que ficou famosa pelo “Happy Birthday, Mr. President” (em 1962); e Kim Kardashian (à direita), durante o Met Gala de 2022, usando o mesmo vestido

Quando conquistou seu próprio espaço na televisão, especialmente no comando dos figurinos do The Carol Burnett Show, Mackie mostrou que genialidade e bom humor podem caminhar juntos na alta-costura. Quem acompanha a história da moda não vai esquecer da lendária paródia de E o Vento Levou…, quando Mackie pegou uma cortina verde com varão e a transformou em um vestido suntuoso que entrou direto para a história da TV.


Cher, Tina e as divas que viraram deusas em suas mãos

É impossível dissociar a imagem de algumas das maiores mulheres da música do trabalho de Bob Mackie. A cumplicidade criativa entre ele e Cher atravessou mais de cinco décadas e foi um dos romances estéticos mais potentes da cultura pop. Antes de a internet inventar o termo naked dress, Mackie e Cher já tinham escrito a cartilha definitiva do conceito no Met Gala de 1974 com aquele vestido de tule e plumas brancas.

E o que dizer do Oscar de 1986? Quando a Academia esperava vestidos formais e previsíveis, Cher surgiu vestindo um conjunto recortado e um monumental cocar preto de plumas. Foi uma afronta deliciosa ao bom-mocismo, assinada por Mackie.


O mesmo aconteceu com Tina Turner. Foi ele quem desenhou as icônicas roupas de franjas curtas e recortes dinâmicos nos anos 1970 e 1980, esculpidas milimetricamente para acompanhar a força bruta e a eletricidade de cada passo de dança da cantora nos palcos. O estilista ainda vestiu Whitney Houston, Diana Ross e Barbra Streisand, sempre entendendo a anatomia de cada uma como uma escultura pronta para reluzir sob os holofotes.


A conexão com o homem: a libertação do palco masculino

Muito antes de o mercado atual abraçar a fluidez de gênero e trazer o maximalismo para as semanas de moda masculina, Bob Mackie já ensinava que homem não precisa ficar preso à mesmice do terno escuro. Nos palcos, ele ajudou a reescrever o que significava presença cênica masculina:

O famoso uniforme de lantejoulas do time de beisebol LA Dodgers criado por Bob Mackie para Elton John em 1975. Ele foi desenhado para os shows históricos no Dodger Stadium, em Los Angeles
  • Elton John e a apoteose visual: Foi Mackie quem idealizou alguns dos figurinos mais inesquecíveis da carreira do pianista nos anos 1970 — incluindo o emblemático uniforme do time de beisebol dos Dodgers inteiramente cravejado de lantejoulas prateadas em 1975, além de capas barrocas e ombreiras dramáticas que deram carta-branca para o homem se vestir de pura fantasia
  • The Jackson 5 e a era disco: Ao vestir Michael Jackson e seus irmãos no auge dos programas de TV, Mackie uniu uma alfaiataria primorosa em cetim, calças boca de sino com caimento impecável e estampas gráficas que definiram o visual da soul music.
  • RuPaul e a exaltação da arte: O estilista foi uma das maiores referências e inspirações para a consolidação da estética drag moderna, ensinando que a modelagem no corpo masculino também pode ser grandiosa, teatral e impecável.

Mackie mostrou que o homem no palco tem o direito inegociável de brilhar, de ocupar espaço e de emocionar sem pedir desculpas.

A saudade e o legado de quem nos fez sonhar

Bob Mackie acumulou nove prêmios Emmy, indicações ao Oscar e o reconhecimento máximo do conselho de estilistas norte-americano (CFDA). Mas o seu verdadeiro legado não cabe em troféus de prateleira.

O seu trabalho nos deixa uma lição urgente e dolorosamente necessária: a vida é curta demais para roupas sem alma. Mackie fez da sua tesoura e dos seus bordados um manifesto eterno de liberdade, entusiasmo e generosidade estética. Ele se vai, mas a luz que colocou sobre a história da moda nunca vai se apagar.

Thiago Assunção

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